Niri, Attitudes that changed two lives

March 15, 2020

PT: Niri, Atitudes que mudaram duas vidas

 

Em setembro de 2015 percorri pela primeira vez em cerca de 12 horas os 163 kms da ferrovia Fianarantsoa-Côte Est (FCE), uma ferrovia construída no sudeste de Madagáscar, que conecta a cidade de Fianarantsoa, no planalto, à cidade portuária de Manakara construída a mando dos franceses, colonizadores na altura entre 1926 e 1936, usando o programa de trabalhos forçados SMOTIG. 

Esta linha atravessa alguns dos habitats mais ameaçados do mundo. A manutenção do funcionamento desta linha é um dos garantes para a manutenção possível dos núcleos de floresta tropical que existem na zona sudeste da ilha, garantindo com a linha a chegada de produtos para alimentar as cerca de 16 aldeias que são ponto de passagem deste comboio que transporta pessoas e mercadorias.

A viagem nesta linha faz-se com paragens entre cada aldeia que podem durar de meia a duas horas, consoante as mercadorias para descarregar e carregar e também pelas avarias que o comboio tem regularmente.

 

Falar de Madagáscar é falar de um dos países mais pobres do mundo, mas também de um dos países com melhores pessoas no que respeita a simpatia e afabilidade.

 

 

Mas a história desta fotografia transporta-me para o dia em que conheci, a Niri, a criança mais velha que segura às costas o seu irmão. Numa das aldeias, cruzei-me com esta pequena rapariga, entre muitas crianças que iam aparecendo nas estações, a cada paragem. A realidade é que 2 vezes por semana, a cada passagem do comboio, as crianças faltam à escola ou aos trabalhos familiares, para ver quem passa, ou para fazer negócio vendendo um pouco daquilo que a família produz (frutas tropicais como bananas, mangas, ananás, especiarias, café, frango frito, chamuças, e tantas outras coisas).

A realidade local destas aldeias, de acessos difíceis para além do comboio, leva a que muita gente faça da linha a via mais fácil para ir de uma aldeia a outra a pé percorrendo as distâncias médias de 12 km entre paragens. Aqui a riqueza não abunda, pelo contrário, seria normal se trouxermos um pacote de bolachas para fora da carruagem, este ser disputado, estraçalhado, por um grupo de crianças que compete por uma simples embalagem de biscoitos.

Nesse dia em que conheci a Niri, saí da carruagem naquela paragem, eu estava a comer uns moufbal, imaginem uns biscoitos tipo sonho mas com massa mais consistente, e ela apareceu carregando às costas o seu irmão mais novo. Habitualmente meto conversa com muita gente que me vai aparecendo e perguntei-lhe o nome.

Tendo descoberto nesse dia esses maravilhosos "biscoitos" tinha uns poucos comigo, e à medida que ia comendo ia dividindo pequenos pedaços, partilhando com ela e com o irmão. Ela a cada bocadinho recebido ia guardando. O chefe da estação uns minutos depois faz soar o apito que avisa para a partida do comboio. Tinham-me sobrado uns dois biscoitos e pû-los nos bolsos dela. Ao entrar na carruagem olhei para trás e ela estava a dividir os biscoitos com as outras crianças que andavam por ali. Ao ver aquilo fiquei com o sentimento que aquela atitude era diferente de tudo o que seria normal no cenário habitual que tinha vivido naquele país até aquele momento. 

Em 2016 voltei de novo a fazer aquela viagem de comboio e voltei a encontrar a Niri, e pelo segundo ano ela voltou a ter a mesma atitude de partilha. Fiquei a pensar que já que não consigo mudar o mundo, que se pudesse ajudar aquela criança a ter um futuro diferente do que esperar por um comboio que passa 2 vezes por semana iria ficar feliz.

2017, volto ao comboio na expectativa de conseguir falar com os pais dela para poder tentar arranjar informação que me pudesse sustentar um plano de apoio à educação da Niri. Mas não aconteceu.

2018, foi o ano, volto ao comboio, e mal chego à paragem dirijo-me à primeira criança que reconheço, o Lando, perguntei pela Niri, e ele responde que estaria em casa. Como não poderia afastar-me do comboio perguntei se ele podia ir chama-la a casa, mas não podia. Foi falar com uma vendedora de bananas, que depois de lhe dizer que lhe daria a gratificação de 10000 ariary, pousa o cesto de bananas e sai a correr. 5 minutos depois tinha a Niri e a sua mãe na estação.

Fui chamar o revisor do comboio para ser o meu intérprete e expliquei o porquê de querer começar a apoiar uma educação melhor da criança. Fiquei com alguns dados, com o número de telefone do pai. E segui viagem, já com esperança de que algo bom podia acontecer na vida daquela criança e também naquela família de agricultores malgaxes. Nesse dia, por excesso de alegria, descontração e confiança, pouco tempo depois daquele encontro, podia ter morrido ao ter caído do comboio em movimento, tive muita sorte de ter comigo um grupo de amigos viajantes que cuidou de mim, umas lesões, hematomas, galos na cabeça e arranhões à parte saí vivo deste episódio.

No dia seguinte falei com um amigo local e perguntei se por tal valor conseguiria dar apoio à família para que pudesse pagar o acesso a uma boa escola, sonhei que se ela quisesse aprender numa boa escola e aprender pelo menos uma língua estrangeira como o francês, ela poderia ter uma vida melhor ligada ao turismo, sendo esta uma das atividades mais promissoras naquele país. E com uma lingua estrangeira aprendida a nossa comunicação iria melhorar também.Tudo isto se ela quisesse ou quiser. A imposição nunca é boa estratégia, por isso ela tomará o destino que entender, mas pelo menos com algum acompanhamento.

O meu amigo disse que sim seria possível, ligámos ao pai dela que aceitou o apoio à família para que a criança pudesse ir para uma escola melhor. E foi aí que tudo começou a mudar. O pai teve de ir à cidade grande abrir uma conta no banco para lhe poder transferir o dinheiro, e uns meses mais tarde a Niri estaria a entrar numa nova escola. O sucesso não foi o melhor, pois a escola ainda na sua aldeia não tinha capacidade de resposta e de acompanhar quem tinha umas bases muito fracas. Depois desta fase arranjou-se uma professora privada que a preparou para o acesso a um colégio na cidade grande onde o comboio começa a sua viagem. Hoje encontra-se encaminhada e com os estudos mais orientados... o futuro agora pertence-lhe, cabendo-lhe a ela aproveitar e potenciar toda esta mudança no seu caminho. Daqui deste lado já somos uns poucos a torcer por ela. Resta-nos ir acompanhando, orientando e guiando para que num país cheio de adversidades, a vida lhe possa sorrir.

 

 

EN: Niri, Attitudes that changed two lives

 

In September 2015, I traveled the 163 km of the Fianarantsoa-Côte Est (FCE) railway for the first time in about 12 hours, a railroad built in the southeast of Madagascar, which connects the city of Fianarantsoa, ​​on the plateau, to the port city of Manakara built at the behest of the French, colonizers at the time between 1926 and 1936, using the SMOTIG forced labor program.

This line crosses some of the most endangered habitats in the world. Maintaining the functioning of this line is one of the guarantees for the possible maintenance of the tropical forest nuclei that exist in the southeastern part of the island, guaranteeing with the line the arrival of products to feed the approximately 16 villages that are the stopping point of this train that transports people and goods.

The journey on this line is made with stops between each village that can last from half to two hours, depending on the goods to unload and load and also due to the damage that the train has regularly.

 

To speak of Madagascar is to speak of one of the poorest countries in the world, but also of one of the countries with the best people in terms of friendliness and kindness.

 

But the story of this photograph takes me back to the day I met Niri, the oldest child who holds her brother on her back. In one of the villages, I came across this little girl, among many children who were showing up at the stations, at each stop. The reality is that twice a week, with each passage of the train, children miss school or family work, to see who passes by, or to do business by selling a little of what the family produces (tropical fruits such as bananas, mangoes, pineapples, spices, coffee, fried chicken, samosas, and many other things).

The local reality of these villages with difficult access beyond the train, you can see many people making the line the easiest way to get from one village to another on foot, traveling the average distances of 12 km between stops. Here, wealth does not abound, on the contrary, it would be normal if we bring a package of cookies out of the carriage, this being disputed, smashed, by a group of children who compete for a simple package of cookies.

That day when I met Niri, I got out of the carriage at that stop, I was eating some moufbal, imagine some dream-like cookies but with more consistent dough, and she appeared carrying her younger brother on her back. I usually talk to a lot of people who appear to me and I asked her name.

Having discovered that wonderful "cookie" that day, I had a few with me, and as I ate I was sharing small pieces, sharing with her and her brother. She kept every little bit received. A few minutes later, the stationmaster blows the whistle that signals the train's departure. I had a couple of cookies left and put them in her pockets. When I got into the carriage, I looked back and she was sharing the cookies with the other children who were walking around. When I saw that, I got the feeling that that attitude was different from anything that would be normal in the usual scenario that I had lived in that country until that moment.

In 2016 I went on that train trip again and found Niri again, and for the second year she again had the same sharing attitude. I was thinking that since I can't change the world, that if I could help that child have a different future than waiting for a train that passes twice a week, I would be happy.

2017, I am back on the train in the expectation of being able to speak to her parents in order to try to find information that could support me in a plan to support Niri's education. But it didn't happen.

2018 was the year, I return to the train, and as soon as I arrive at the stop I go to the first child I recognize, Lando, I asked for Niri, and he replies that she would be at home. As I couldn't get away from the train, I asked if he could come and call her home, but he couldn't. He went to speak to a banana seller, who after telling him that he would give her the bonus of 10,000 ariary, put down the basket of bananas and went running. 5 minutes later I had Niri and her mother at the station.

I went to call the train reviewer to be my interpreter and explained why I wanted to start supporting a better education for the child. I got some data, with the father's phone number. And I continued on my journey, already hoping that something good could happen in the life of that child and also in that family of Malagasy farmers. That day, due to excessive joy, relaxation and confidence, shortly after that meeting, I could have died when I fell off the moving train, I was very lucky, some injuries, bruises, bumps on the head and scratches aside I left this episode alive.

The next day I spoke to a local friend and asked if for such a price I would be able to support the family so that I could afford access to a good school, I dreamed that if she wanted to learn at a good school and learn at least one foreign language like French, it could have a better life linked to tourism, which is one of the most promising activities in that country. And with a learned foreign language our communication would improve too. All this if she wanted or want to. Imposition is never a good strategy, so it will take its destiny, but at least with some accompaniment.

My friend said yes it would be possible, we called her father who accepted support for the family so that the child could go to a better school. And that's when everything started to change. The father had to go to the big city to open a bank account in order to transfer the money to him, and a few months later Niri would be entering a new school. Success was not the best, as the school still in its village did not have the capacity to respond and to monitor those who had very weak bases. After this phase, a private teacher was arranged to prepare her for access to a school in the big city where the train begins its journey. Today she is on her way and with more oriented studies ... the future now belongs to her, and it is up to her to take advantage of this change on her way. From here on this side we are already a few cheering for her. It remains for us to follow, and guide so that in a country full of adversity, life can smile at her.

 

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